4 de janeiro de 2016

Resenha Despertar - Sam Harris

Título: Despertar: um guia para a espiritualidade sem religião | Autor: Sam Harris | Páginas: 264 | Ano: 2015 | Editora: Companhia das Letras
O último livro lido do ano passado foi Despertar: Um guia para a espiritualidade sem religião. Quando descobri o título achei a proposta de tratar sobre o assunto a partir da psicologia, filosofia e neurociência, muito interessante!

Para começar a resenha de hoje, eu não classificaria Despertar como um “guia para a espiritualidade” pois quando penso em um guia imagino um livro que me aponte atividades para atingir um objetivo - como em Sonhos Lúcidos -, nesse caso, exercitar a espiritualidade. Para mim, o que Sam Harrisfez mais foi descrever sua forma de entender alguns assuntos, não especificamente a espiritualidade.

Explico o porquê. Em algum momento do terceiro capítulo, me perguntei se o autor não teria se desviado do principal, já que acabou deixando a espiritualidade, propriamente dita, de lado. O autor aborda temas como consciência, mente, estruturas cerebrais, self e farmacologia, que podem até estar relacionados, mas, será que a espiritualidade se resume a isso? Pessoalmente acredito que não.

O segundo e terceiro capítulos foram o que mais me despertaram essa impressão, já que um está mais voltado para questões da área da neurociência, onde Harris passa a explicar algumas áreas do cérebro e cita diversos estudos da área relacionados a consciência, e no outro tenta convencer o leitor, basicamente, de que o self é uma ilusão e de que reconhecer esse fato seria a chave para a espiritualidade.

“... a experiência é uma coisa, e nossa progressiva descrição científica da realidade é outra. Neste momento, você pode estar vividamente cônscio de estar lendo este livro, mas desatento para os fenômenos eletroquímicos que ocorrem em cada uma das trilhões de sinapses em seu cérebro. Por mais conhecimentos que tenha sobre física, química e biologia, você vive em outro lugar. Na sua experiência, você não é um conjunto de átomos, moléculas e células; você é uma consciência e seus conteúdos sempre mutantes, que passam por vários estágios de vigília e sono, do berço ao túmulo.” p. 61.

Apesar desses capítulos serem interessantes e eu gostar de neurociência, em alguns momentos, eles acabam sendo cansativos, talvez por que os conceitos de consciência e self sejam mesmo complexos e difíceis de serem explicados. É possível que essa minha dificuldade tenha a ver, também, com o fato da visão de algumas correntes da Psicologia sobre self se assemelharem muito ao que Harris coloca como a consciência em si. De todo modo, o leitor menos familiarizado com esses temas pode ter um trabalho maior com a leitura.

Em relação as instruções, o autor explica como podem ser feitas duas técnicas apenas, que são a Mindfulness, ou atenção plena, e a Meditação do contato visual, que é realizada em dupla. A Meditação de um modo geral é mencionada várias vezes como um bom investimento para o leitor chegar a um estado de transcendência, já que não é preciso ter fé no que prega o budismo, por exemplo, para obter os benefícios da prática.

“Passamos a vida perdidos em pensamentos. A questão é: que importância devemos dar a isso? No Ocidente a resposta tem sido ‘não muita’. No oriente, em especial em tradições contemplativas como o budismo, a distração por pensamentos é tida como a própria fonte do sofrimento humano.” p. 111.

A questão do uso de drogas para a vivência de experiências psicodélicas é um ponto complicado em Despertar que requer um cuidado especial e senso crítico do leitor. Harris aponta que o uso de substâncias talvez seja o meio mais fácil para uma pessoa comum alcançar o potencial da consciência, que não se atinge de forma “normal”.

Alguns tipos de droga foram e ainda são utilizados por religiosos para atingir estados iluminados, mas o uso está relacionado com um ritual, dentro de um contexto cultural. Apesar de toda a polêmica em torno do tema, estudos indicam que certas substâncias são bastante perigosas e podem até desencadear psicoses e esquizofrenia em pessoas predispostas. O próprio autor coloca que vivenciou tanto experiências boas quanto ruins por meio do uso de drogas. Assim, acredito que todos os riscos podem não valer a pena para a possibilidade incerta de se viver uma “experiência transcendental”.

A minha empolgação com o livro era bem maior no início do que no fim da leitura. O primeiro capítulo foi, para mim, o mais interessante pois nele o autor aborda um pouco das religiões e algumas diferenças básicas entre Oriente e Ocidente. Tenho um interesse grande em história e cultura, e o tema da religião é tão intrincado com ambas e tão atual, ao mesmo tempo, que me desperta a cada vez vontade de conhecer mais sobre o assunto.

Encontrei em Despertar trechos sobre a felicidade x sofrimento psíquico na atualidade que trazem ideias bastante interessantes como, por exemplo, a de que a mente cheia de pensamentos seja a origem de grande parte de nossos problemas. As menções de Harris a suas experiências pessoais com gurus e figuras conhecidas como “iluminadas” também são bacanas, até porque ele mesmo aponta acertos e falhas, de acordo com a sua visão, sobre a atuação dessas pessoas.

“O paradoxo é que podemos nos tornar mais sábios e mais compassivos e viver vidas mais plenas nos recusando a ser quem tendíamos a ser no passado. Mas também precisamos relaxar, aceitar as coisas como elas são no presente enquanto nos empenhamos em mudar a nós mesmos.” p. 161

Enfim, Despertar foi uma leitura com altos e baixos, mas, de um modo geral, interessante. + Leia um trecho do livro aqui.


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Carol

Sobre a autora:

Caroline: Criadora e administradora do blog, é estudante de Psicologia, capricorniana e chocólatra assumida. Também é viciada em música e adora filmes de aventura, romance histórico, games e cultura japonesa.

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