21 de janeiro de 2016

Resenha Mulheres de Cinzas - Mia Couto

Título: Mulheres de Cinzas (As Areias do Imperador 1) | Autor: Mia Couto | Nº páginas: 344 | Ano: 2015 | Editora: Companhia das Letras | Leia um trecho
O mais novo título do autor africano Mia Couto e lançamento da Companhia das Letras é o livro da resenha de hoje! Mulheres de Cinzas é o primeiro volume da trilogia "As Areias do Imperador", que se passa no final do século XIX, momento em que Moçambique era palco de uma guerra entre soldados portugueses e Ngungunyane, um líder do império africano que acabou se tornando um mito no país. Mas, como Mia Couto vai trazer, talvez a história real não seja a mesma que vem sendo contada há séculos.

Os protagonistas de Mulheres de Cinzas nos contam, cada um, o seu lado dessa história. Imani dá voz ao povo local, em processo de colonização pelos portugueses e Germano de Melo, como oficial, tem uma visão que vai mudando a cada dia que convive com os negros, nativos daquela terra de “tamanho imensurável”.

    “Chamo-me Imani. Este nome que me deram não é um nome. Na minha língua materna ‘Imani’ quer dizer ‘quem é?’. Bate-se a uma porta e, do outro lado, alguém indaga:
    - Imani?
    Pois foi uma indagação que me deram como identidade. Como se eu fosse uma sombra sem corpo, a eterna espera de uma resposta.” p.15

Imani, uma garota de 15 anos, é a única que fala o português perfeitamente na tribo dos VaChopi, por isso, é intérprete para os soldados que passam pela região. Pelo fato de ainda não ser mãe, Imani sente que não está cumprindo o seu papel de mulher, ainda mais porque em sua cultura uma garota só é reconhecida quando se une a um homem. Além disso, por estar cada vez mais familiarizada com os hábitos dos brancos, fica em dúvida sobre quem realmente é.

É muito bacana acompanhar os questionamentos que Imani faz sobre sua identidade e como ela acaba se sentindo, dentro desse contexto, quase que como uma pessoa sem uma alma, presente em nenhum dos dois mundos, não sendo nem negra nem branca, e chega a ser confrontada pela família por isso. É interessante perceber, também, que até mesmo dentro da aldeia, as opiniões sobre os costumes europeus divergem.

    “Não sei por que me demoro tanto nesta explicações. Porque não nasci para ser pessoa. Sou uma raça, sou uma tribo, sou um sexo, sou tudo o que me impede de ser eu mesma. Sou negra, sou dos VaChopi, uma pequena tribo no litoral de Moçambique. A minha gente teve a ousadia de se opor à invasão dos VaNguni, esses guerreiros que vieram do sul e se instalaram como se fossem donos do universo. Diz-se em Nkokolani que o mundo é tão grande que nele não cabe dono nenhum.
    A nossa terra, porém, era disputada por dois pretensos proprietários: os VaNguni e os portugueses. Era por isso que se odiavam tanto e estavam em guerra: por serem tão parecidos nas sua intenções.” p. 17

Gostei muito da personagem principal, vocês já devem ter percebido, rs. Isso porque Imani tem uma presença forte e conquista desde o início ao trazer, em sua fala, a história de sua tribo e o modo como eles enxergam o mundo, uma cultura riquíssima extremamente ligada à natureza, que busca estar em harmonia com seus elementos, entendendo como ela funciona, e qual a função de cada um no mundo. Totalmente diferente da cultura que queriam implantar os portugueses. Da mesma forma, é curioso ver os ideias dessa comunidade em choque com a visão do soldado português.

Falando nele, Germano, por sua vez, é enviado para a África a fim de lutar e garantir o território na colônia. Entretanto, estando lá, ele percebe certas contradições e passa a se questionar sobre qual a sua verdadeira função e qual o papel de Portugal na guerra, na proteção dos nativos, e também, em relação a como os “cafres” são tratados pelos soldados. Essa mudança é perceptível nas cartas enviadas a seu superior que, no começo, não passam de relatórios, mas, que se tornam bastante pessoais com o tempo, quando ele passa a adotar um tom mais informal e íntimo para contar sobre sua experiência em Nkokolani e, também, sobre seus sentimentos.

    “Em silêncio, finquei os pés na areia como se estancasse um rio. E era o choro que eu estancava. Melhor teria sido deixar o pranto acontecer. Dizia a nossa mãe que, quando choramos, a alma segue o exemplo da Terra, sob a chuva: torna-se barro. E o barro dá-nos casa, o barro é quem molda a nossa mão.” p.97

Além de Imani e Germano e do próprio tempo, Mulheres de Cinzas apresenta ao leitor outras figuras marcantes: A mãe de Imani, Chikazi, seu pai, Katini, que é visto como um líder em Nkokolani, o avô que ruma para trabalhar nas minas e os irmãos da garota, Mwanatu e Dubula, que lutam de lados opostos da guerra. Este último não aceita o controle de Portugal e se associa à tribos inimigas, o outro adota os costumes dos portugueses e, como soldado, ajuda a “proteger” o quartel onde armas são armazenadas.

A narrativa, em primeira pessoa, tem um quê poético e viaja entre o presente e o passado para contar a trama que, apesar de ser escrita em português, possui várias palavras diferentes que, muitas vezes, não são iguais a como falamos no Brasil. Esses fatores não atrapalham a leitura, e deixam a obra com uma cara ainda mais própria, mas requerem um cuidado a mais na hora da leitura para os leitores que, assim como eu, não estão tão familiarizados ao estilo.

Mulheres de Cinzas foi uma leitura ótima pois me fez viajar para o passado e compreender um pouco mais sobre uma realidade tão diferente da minha e, principalmente, de uma cultura tão rica e interessante! Me fez abrir os horizontes e relembrar a importância das questões históricas e sociais.

    "A estrada é uma espada. A sua lâmina rasga o corpo da terra. Não tarda que a nossa nação seja um emaranhado de cicatrizes, um mapa feito de tantos golpes que nos orgulharemos mais das feridas que do intacto corpo que ainda conseguirmos salvar." p.11

Após a leitura busquei sobre a história do livro em si, e acabei gostando ainda mais dele depois disso. Nos vídeos que assisti o autor conta que o seu principal objetivo com Mulheres de Cinzas foi desconstruir a ideia de que existe uma versão única sobre o passado de Moçambique e que, ainda, há uma variedade delas. Isso me fez pensar tanto sobre a situação de Moçambique quanto a do Brasil, também colonizado por Portugal, que levantaram variadas questões sobre a identidade nacional e sobre a própria história do Brasil que aprendemos na escola. Quantas outras versões existem e que não foram (ainda) contadas?



Ah! Apenas um comentário: Tentei ler ouvindo o sotaque português mas não consegui por muito tempo, embora tenha sido uma experiência legal rs.

Abaixo deixo alguns links para vídeos que recomendo para aqueles que gostariam de pensar um pouco mais sobre o livro, as questões históricas que o permeiam e queiram saber mais sobre literatura africana.

+ Mia Couto: “Mulheres de Cinza”
+ Revista Estante: Entrevista a Mia Couto
+ Como definir a literatura africana? LiteratusTV
+ A Literatura Africana - Nova África
+ Mia Couto - Os pais do Brasil
+ Mia Couto - A trajetória de um escritor ativista
+ Mia Couto - As colonizações e a língua portuguesa
+ Mia Couto - Relações linguísticas
+ Mia Couto - Pensei que o mundo fosse poeta
+ Mia Couto - O problema da tradução
+ Mia Couto - Independência é muito pouco
+ Mia Couto - Os lugares do interior
+ Mia Couto - Minha vida ficcional

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