Resenha A Guerra Não Tem Rosto de Mulher - Svetlana Aleksiévitch

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Título: A Guerra Não Tem Rosto de Mulher | Autor: Svetlana Aleksiévitch | Editora: Companhia das Letras | Páginas: 392 | Ano: 2016 | Leia um trecho
Hey pessoal, como vão? Hoje venho apresentar um dos lançamentos da Companhia das Letras mais marcantes dos últimos tempos. Trata-se de um livro sobre a Segunda Guerra Mundial, só que, A Guerra Não Tem Rosto de Mulher, revela uma faceta diferente daquela que conhecemos sobre esse fatídico momento da história: o livro conta a guerra pela visão delas, das mulheres.

Ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura de 2015, a jornalista e escritora Svetlana Aleksiévitch conversou com as corajosas combatentes do Exército Vermelho e reuniu seus depoimentos neste livro. Aqui descobrimos as histórias que nunca foram contadas das muitas mulheres que lutaram à frente da batalha, atirando, pilotando aviões, dirigindo tanques, salvando soldados em meio ao fogo cruzado, e também, das diversas que lavavam roupas encrustadas de sangue, cozinhavam muito com o pouco que tinham, e escreviam e entregavam cartas em meio a guerra.

    “(...) - O que você levou para a guerra?
    - Bombons.
    - Como?
   - Uma mala inteira de bombons. Na aldeia para a qual fui designada depois da escola me deram um abono de transferência. Tinha um dinheiro, e usei tudo para comprar uma mala inteira de bombons de chocolate. Eu sabia que na guerra não ia precisar de dinheiro. E em cima dos bombons pus uma fotografia do curso, que tinha todas as minhas amigas. Fui para o centro de alistamento. O chefe me perguntou: ‘Para onde mando você?’. E eu disse: ‘Minha amiga está indo para onde?’. Eu e ela tínhamos ido juntas para a região de Leningrado, e ela trabalhava na aldeia vizinha, a quinze quilômetros. Ele riu: ‘Ela perguntou exatamente a mesma coisa’. Pegou minha maleta para pôr no caminhão que nos levaria à estação: ‘O que você pôs aqui de tão pesado?’. ‘Bombons, a mala inteira.’ Ele ficou calado. Parou de rir. Eu via que não estava à vontade, estava até um pouco envergonhado. Era um homem mais velho... Sabia para onde estavam me levando...”.
(Maria Vassílievna Tikhomírova, enfermeira. p.95)

Jovens, esposas, mães... Como não se emocionar com essas corajosas patriotas que, muitas vezes, sem nem mesmo ter ideia do que encontrariam pela frente, se voluntariaram para lutar pelo seu país e proteger sua família?

A verdade é que A Guerra Não Tem Rosto de Mulher é um livro forte e tenso, mas, ao mesmo tempo, é escrito de forma envolvente que te fazer querer continuar lendo e se impressionar ainda mais a cada página, com a realidade vivida nos relatos. É até clichê dizer isso, mas só lendo para entender, rs.

Foi difícil não querer marcar todos os relatos que me impressionaram pois é cada história que vocês nem imaginam! Além do mais há ainda o que a autora não colocou e, provavelmente, muito que elas mesmas, por razão ou outra, não quiseram revelar a Svetlana.

Elas contam sobre como era difícil matar, mesmo sendo os inimigos alemães que invadiam suas terras e assassinavam suas famílias; o cotidiano árduo em meio ao front, passando dias com pouca comida, e carregando equipamentos maiores que elas mesmas; o corte de cabelo muito curto e como a "natureza feminina" teve que ser posta de lado para se tornarem soldados. Algo que chama muito a atenção é o fato de que, por muito tempo, elas precisaram se virar com roupas masculinas e calçados grandes demais que saiam dos seus pés enquanto andavam! (Como vocês podem ler no trecho abaixo).

    “(...) Depois da quarentena, antes do juramento, o subtenente trouxe as fardas (...). Verificou-se que, por minha altura e compleição, eu era a menor da companhia, media 1,53 metro, calçava 35, e naturalmente a indústria militar não produzia tamanhos tão minúsculos, muito menos nos Estados Unidos, que nos fornecera as fardas. Arrumaram uns coturnos número 42 para mim; eu os tirava e calçava sem desamarrar o cadarço, e eles eram tão grandes que eu andava arrastando os pés na terra dia e noite. Saíam faíscas da ponte de pedra por causa da minha marcha militar, e meu andar parecia qualquer coisa, menos uma marcha. É horrível lembrar o pesadelo que foi a primeira marcha. Estava preparada para realizar grandes feitos, mas não para usar coturnos tamanho 42 em vez de 35. Eram tão pesados e tão feios! Tão feios!
    O comandante viu como eu estava andando e me mandou sair da formação: ‘Smirnova, é assim que você marcha em formação? O que foi, não lhe ensinaram? Por que não levanta os pés? Vou te dar três serviços extras...’
    Respondi: “Entendido, camarada primeiro-tenente, três serviços extras’, dei meia volta para sair e caí. Caí e fiquei sem os coturnos... Meus pés estavam em carne viva, sangrando...
   Então ficou claro que eu já não conseguia andar. Ordenaram a Párchin, o sapateiro da companhia, que, usando a lona de uma tenda velha, fizesse para mim botas tamanho 35...”

(Nonna Aleksándrovna Smirnova, soldado, operadora de artilharia antiaérea. p.98)

Apesar do conteúdo forte chocar com mais frequência, não existem somente relatos voltados aos pontos negativos e é preciso dizer que há episódios memoráveis de doação, igualmente impressionantes, e outros que demonstram um sentimento de humanidade absurdo em um contexto que colocava tudo isso a prova.

    “(...) E então... A gente nunca sabe o que se passa no nosso coração. No inverno, conduziram prisioneiros alemães diante da nossa unidade. Eles andavam congelados, com cobertores rasgados sobre a cabeça, capotes esburacados. Fazia tanto frio que os pássaros caíam no meio do voo. Congelavam. Naquela coluna havia um soldado... Um menino. Tinha lágrimas congeladas no rosto... E eu estava levando pão em um carrinho de mão para o refeitório. Ele não conseguia tirar os olhos do carrinho, não me via, só via o carrinho. O pão... O pão... Eu separei um pedaço de uma bisnaga e dei para ele. Ele pegou... Pegou e não acreditava. Não Acreditava... Não acreditava! Fiquei feliz... Feliz por não poder odiar. Na época, eu mesma fiquei surpresa...”

(Natália Ivánovna Serguêiva, soldado, auxiliar de enfermagem. p.112)

Além das histórias que se passaram durante a guerra, é interessante ver o que elas ainda tiveram de enfrentar depois. Afora o impacto psicológico devido aos horrores da guerra, a maioria dessas mulheres não tiveram o devido reconhecimento e foram esquecidas, outras foram “convidadas" a abandonar o que tinham vivido e voltar à “vida normal”. De irmãzinhas respeitadas e cuidadas durante o tempo de combate, foram deixadas de lado. Muitas ficaram sozinhas pois não tinham nenhum parente vivo, a maioria dos soldados e suas famílias também não queriam um esposa que tivesse lutado na guerra, já que elas haviam visto de mais...

A própria Svetlana sofreu com a censura, que não queria que ela mostrasse o “sujo” da guerra e destruísse seus heróis. Depois de vários anos a autora reviu o que havia retirado do livro e incluiu novos trechos no primeiro capítulo “O ser humano é maior que a guerra” onde ela também traz como contatou as mulheres que aparecem em A Guerra Não Tem Rosto de Mulher.

Não é um livro para todos, mas, para quem se interessa pela temática e quer conhecer um pouco mais sobre a guerra e, principalmente, no que diz respeito às experiências das quase um milhão de mulheres que lutaram e contribuíram para a Vitória da Rússia (se é que há vencedores em uma guerra), A Guerra Não Tem Rosto de Mulher merece muito ser lido. 

"A guerra 'feminina' tem suas próprias cores, cheiros, sua iluminação e seu espaço sentimental. Suas próprias palavras. Nela, não há heróis nem façanhas incríveis, há apenas pessoas ocupadas com uma tarefa desumanamente humana. E ali não sofrem apenas elas (as pessoas!), mas também a terra, os pássaros, as árvores. Todos os que vivem conosco na terra. Sofrem sem palavras, o que ainda é mais terrível." (p.12)


E para finalizar a resenha, deixo abaixo o video de uma entrevista com a autora esse ano, que foi o que me inspirou a procurar pelo livro, rs. Obrigada por ler o Open Page e até o próximo post!

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