9 de maio de 2017

Resenha Mutações da Literatura no século XXI - Leyla Perrone-Moisés

Título: Mutações da Literatura no século XXI | Autor: Leyla Perrone-Moisés | Editora: Companhia das Letras | Páginas: 296 | Ano: 2016 | Leia um trecho
Hey pessoal, como vão? Na resenha de hoje trago para vocês minhas impressões sobre um título nacional que discute a literatura. Escrito pela crítica paulista Leyla Perrone-Moisés, Mutações da Literatura no Século XXI, é um livro sobre teoria e crítica literária.


Se em seu livro anterior, “Altas Literaturas” (também pela Companhia das Letras), Leyla previu um declínio da literatura, ela inicia Mutações com uma visão diferente. Segundo ela, nunca se teve tantas publicações e eventos literários acontecendo como nos tempos atuais. Entretanto, ela coloca que em meio a esse ressurgir, é importante compreender o que hoje é entendido como literatura para, então, analisar o que constitui a literatura da “pós modernidade”, ou contemporânea.

“Falar da literatura contemporânea é fazer um recorte artificial na temporalidade, por várias razões. A primeira é que, como série cultural, a literatura nunca está cronologicamente ajustada às outras séries. (...) O escritor e seu leitor não dialogam apenas com o mundo em que vivem, mas também com todo o passado da literatura, que eles têm em mente ao escrever ou ao ler. (...) Além disso, a obra literária só se concretiza na leitura e, como esta presentifica a obra, ela é sempre contemporânea do leitor. O que é contemporâneo é o modo de ler as obras do passado, e a persistente atualidade das obras antigas é uma medida de seu valor.” p.254

O livro é divido em duas partes, “Mutações literárias e culturais” e “A narrativa contemporânea”. Na primeira, Leyla faz um panorama histórico e social das transformações pelas quais a literatura, seu estudo/ensino e a crítica literária passaram nos últimos séculos, tratando, principalmente, das mudanças do século XX para o início do XXI. Já na segunda parte, aponta as tendências literárias que surgiram na década de 1990 e hoje vêm ganhando força, como a mistura ou diluição dos gêneros literários presente nas obras, a volta do romanção (que são os títulos de ficção com muitas páginas) e as biofiçções (onde se misturam ficção e figuras reais).


Como vocês devem ter notado pelo “pequeno” número de marcações, simplesmente adorei Mutações da Literatura no século XXI! O livro proporciona aquele tipo de leitura empolgante que você aprende a cada página quase sem perceber e só serviu para aumentar ainda mais o meu interesse no estudo da literatura, teoria e crítica literária.

Ah! Já é bom deixar claro aqui que é impossível fazer a leitura e não sair com vontade de ler várias dos títulos citados e usados como referência por Leyla para as discussões de cada capítulo, tanto aqueles teóricos como os romances, trazidos como exemplos na segunda parte.

É bastante interessante ver que Leyla não deixa o “fenômeno” dos blogs literários de fora de sua discussão no capítulo sobre a crítica literária, onde também traz sobre a sua função e a formação do crítico. Em sua visão, existem sim alguns blogs literários de qualidade, embora ela considere que  muitas vezes nesse tipo de “crítica exclusivamente eletrônica haja falta de fundamentos sólidos, sendo que a “crítica” geralmente permanece num julgamento de gosto/não gosto. Aspecto que não posso que deixar de concordar.

“Do mesmo modo, a formação de um bom crítico de literatura é facultada a qualquer um, independentemente de diplomas, porque o crítico é antes de tudo um grande leitor. Se a pessoa teve a sorte de ler desde cedo bons livros, ela se tornará cada vez mais exigente e mais apta a avaliar os novos livros que lhe caírem nas mãos. É uma formação do gosto, como a do enólogo, e toda formação de gosto se faz por análise e comparação.” p.63

Outra questão muito importante levantada por Leyla é a diferença entre a literatura de entretenimento versus a “alta literatura”. Enquanto a maioria do mercado literário hoje é preenchido por títulos de literatura de entretenimento – em que a importância está principalmente nos fatos -, a alta literatura seria – ou literatura, apenas – aquela que apresenta o mundo e faz o leitor refletir sobre ele, pensando sobre o passado para mudar o presente.

Ela reflete que os “altos leitores” ou leitores exigentes são um número reduzido dentre o pequeno público leitor, que está acostumando a ler sobre o que já conhece e geralmente não passa da literatura de entretenimento - fruto da cultura do consumo - para títulos melhores, mais “difíceis”, como os clássicos e outros títulos que dão trabalho ao leitor menos familiarizado.

“(...) leitura é questão de treino. Os leitores que ainda hoje gostam de histórias como começo, meio e fim, recheada de peripécias e surpresa vividas por personagens que ‘parecem vivas’, foram treinados há muito tempo por escritores que inventaram essa maneira de contar histórias e hoje são lidos com facilidade. Os escritores exigentes procuram novos modos de contar e de se contar, mais condizentes com a complexidade do mundo atual. E eles desafiam os leitores a experimentar novas maneiras de ler.” p.251

Leyla faz apontamentos importantes sobre as diversas tendências da literatura contemporânea, o papel do romance, a presença da metaliteratura e da intertextualidade, o aparecimento das bioficções e autoficções em que os autores se tornaram personagens dos próprios livros, a volta dos títulos gigantes ou romanções, as distopias (bem diferentes daquelas que a gente conhece no universo YA), e a literatura exigente. Entretanto, como me interesso muito pelo assunto, gostaria que a autora tivesse discutido melhor sobre a fantasia e a questão do boom das tramas com seres sobrenaturais nos livros, indo além do rápido trecho sobre o retorno ao conto de fadas dA Bela e a Fera.

E essas são algumas das reflexões que vocês vão encontrar no livro. Por causa do grande número e pertinência das informações, mal acabei de ler e já estou aqui pensando em revisitá-lo no futuro! rs.

Mutações da Literatura no Século XXI é leitura super recomendada para os leitores que gostam de pensar sobre a literatura e querem entender mais sobre ela. Uma ótima opção de livro para quem tem curiosidade sobre teoria e crítica literária – assim como eu, rs - mas não sabe por onde começar.

“(...) podemos concluir: a literatura serve para rir, para chorar, para viajar, para assombrar, para pensar, para compreender e, sobretudo, para nos encantar com o fato de que a linguagem verbal seja capaz de tudo isso e mais um pouco.” p.82

 Leyla Perrone Moisés nasceu em São Paulo, em 1936. É doutora em Língua e Literatura Francesa e livre-docente pela Universidade de São Paulo (USP). Lecionou em várias universidades paulistas. No exterior, deu aulas na Universidade de Montreal, na Universidade Yale, na Sorbonne e na École Pratique des Hautes Études. Coordenou o Núcleo de Pesquisa Brasil-França, do Instituto de Estudos Avançados da USP, de 1988 a 2010. É professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP desde 1996. Em 2013, ganhou o prêmio da Fundação Bunge por vida e obra. 

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